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O melhor amigo de todos

Fiat
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Por: Heloiza Gomes (Fotos: Divulgação)

Há um ditado popular que diz que “o cachorro é o melhor amigo do homem”. O que não é mentira. Principalmente quando se trata de cães de assistência. Devidamente treinados, eles viram companhia constante das pessoas com deficiência, ajudando-as em tarefas do dia a dia, como pegar o controle remoto da Tv.

Os cães de assistência, que precisam usar coletes e carteira de identificação, se dividem em três categorias: cão-guia, cão-ouvinte e cão de serviço. “Os primeiros são, especificamente, para cegos; os segundos, para surdos ou pessoas com baixa audição; e os de serviço, para todas as outras necessidades”, explica Sara Favinha, diretora executiva da Cão Inclusão, projeto social voltado para o treinamento desses tipos de cachorros. “Nós focamos em cadeirantes, crianças com espectro autista e com doenças degenerativas. Mas eles podem ser usados também por diabéticos, pessoas com epilepsia, com transtorno pós-traumático, enfim, diversas necessidades”, complementa Sara.

 

A escolha da raça é fundamental

Como os cães de assistência convivem 24 horas com seus assistidos – vão ao trabalho, escolas, cinemas etc. – a escolha da raça é um dos principais aspectos. Os mais usados são o Labrador Retriever e o Golden Retriever. “Estes foram geneticamente selecionados por caçadores de aves, esporte ainda permitido em alguns países, porque têm o que a gente chama de ‘boca macia’, pois pegam as aves de forma gentil, sem estragar a carne, e as levam para o dono”, conta Sara, alertando também para um detalhe da vida moderna: “Então, eles podem pegar, por exemplo, um celular, que tem tela sensível, sem quebrá-lo”. A adestradora Rocío Marín, da ONG Kuné Brasil, destaca ainda outros aspectos das raças citadas. “Geneticamente, eles têm a vontade de agradar, possuem um caráter dócil e uma imagem social que ajuda na inserção dos cães e seus usuários na sociedade”, afirma. Por isso, de acordo com a adestradora, é fundamental que se observe as características de cada animal, independentemente da raça.

Conheça as funções

Cão-guia: Treinado para andar em linha reta, manter o ritmo constante, virar à esquerda e à direta, ignorar distrações como cheiros, outros animais e pessoas etc.
Cão-ouvinte: Alerta para sons importantes, como alarmes de incêndio, campainhas, chaleira, choro de bebê etc. Eles fazem contato físico e levam a pessoa com deficiência auditiva até a fonte do som.
Cão de serviço: Depende para o que ele é treinado. Os cães para autistas, por exemplo, aprendem a deitar no chão, impedindo que a criança corra e fuja; para diabéticos, a avisar quando há variação do índice glicêmico, sentido pelo cheiro que a pessoa exala; os de alerta comunicam a alguém próximo quando o usuário está tendo uma crise; os para cadeirantes são treinados para chamar o elevador, pegar o telefone, controle da TV etc.

Eles também se aposentam

Como todo trabalhador, os cães de serviço também têm direito à aposentadoria. Afinal, não dá para forçá-los além de suas capacidades. Portanto, a hora de parar é determinada pela atuação do próprio animal. “Eles param de trabalhar aos 8 ou 9 anos de vida, em média. Mas, claro, que isso vai depender de cada cão”, esclarece Rocío Marín.

Animais ajudam na inclusão social

Além da ajuda prática, os cães de assistência cumprem um outro importante papel: o da inclusão social. “Os cães atraem pessoas, que, a princípio, perguntam sobre o animal, depois iniciam uma conversa. Isso é bom, porque a pessoa com deficiência se sente mais inserida e, assim, há o aumento da autoestima”, justifica Sara. “Por isso, não pode ser um cão com instinto de guarda, como o Pastor Alemão, por exemplo, que não deixa ninguém chegar perto do dono. Se um Dobermann entrar no metrô, todo mundo sai (risos)”, exemplifica. Porém, mais do que a interação com desconhecidos, os cães de serviço precisam ter uma total identificação com o dono. Por isso, a escolha do usuário é feita na parte final do treinamento do animal. De acordo com Sara, a atitude e a energia de ambos têm de ser semelhantes. “Por exemplo, um cachorro meigo, é ideal para pessoa com tetraplegia, porque não tem mobilidade nos braços e não consegue segurar a guia. Mas, se for uma criança com espectro autista, pode ser um Labrador bem folião, mais bruto, para aguentar gritos, pisões, brincadeiras”, indica.

Custo é alto

É preciso observar alguns detalhes para manter um cão de assistência. De acordo com Sara Favinha, o animal precisa ter uma alimentação de qualidade – de preferência, natural –, assistência veterinária permanente, atividades física, mental e social. “Tem de ter uma qualidade de vida top. Do contrário, a gente nem dá o cão para a pessoa”, destaca, ressaltando que a Cão Inclusão não cobra pela entrega. “Temos uma lista de espera com centenas de pessoas”, avisa a adestradora, que conta com a ajuda de patrocinadores. A Kuné Brasil também presta o serviço gratuitamente. E, por isso, Rocío chama atenção para o alto custo do trabalho. “O treinamento para a formação de um desses cães pode chegar a R$ 50 mil. Então, é indispensável a inestimável ajuda de patrocinadores, doações e voluntários”, finaliza.

Etapas do treinamento

  • Seleção de filhote

De preferência, a escolha deve ser entre as raças Labrador Retriever e Golden Retriever. “Essas raças são as mais comuns nos programas de cães de assistência em todo o mundo. Ainda assim, os vira-latas, de pequeno e médio portes, podem ser excelentes cães-ouvintes, por exemplo”, ressalta Rocío Marín, da Kuné Brasil.

  • Socialização com famílias voluntárias

Esta etapa começa quando o filhote está com dois meses e tem duração de um ano. É quando o cão recebe os primeiros treinamentos. “A família vai mostrar que está tudo bem em andar de metrô, que é legal ir ao cinema, que é bacana receber pessoas em casa”, resume Sara Favinha. “Nesta fase, a gente também vai inserindo alguns comandos de obediência”, complementa a diretora executiva do Cão Inclusão.

  • Treinamento específico

Depois de um ano com a família socializadora, o animal vai para a equipe de adestradores especializados em cães de assistência. “Ensinamos os comportamentos específicos para ajudar, durante seis meses.  Depois, quando o cachorro está pronto, a gente escolhe a pessoa adequada para ele”, explica Sara.

  • Formação da dupla

Também chamado de acoplamento do cão com o usuário, esta etapa tem duração de cerca de três meses. Aqui, o adestrador responsável acompanha diariamente o animal e o seu futuro dono. “Refinamos o treinamento, ensinando coisas específicas, voltadas para a pessoa escolhida. Avaliamos se deu ‘match’ entre eles e, quando o cachorro já ama a pessoa e a casa dela, passa a primeira noite lá. E assim vai, gradualmente”, explica Sara.

  • Etapas do treinamento

Mesmo após o cão de serviço se mudar definitivamente para a casa do assistido, o adestrador continua em contato com a dupla. “Enquanto ele estiver trabalhando, a gente conversa com a pessoa e fica de olho no cachorro, para ver se ele está executando bem a tarefa, se precisa retreinar alguma coisa… O acompanhamento é vitalício”, garante Sara

 

 

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