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Geraldo Nogueira, subsecretário da Pessoa com Deficiência – Foto: Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Por: Geraldo Nogueira; Subsecretário da Pessoa com Deficiência no Município do Rio de Janeiro

Kaio Campos entrou em minha sala e foi direto olhar pela fresta da veneziana de todas as janelas, sem exceção, num ritual quase litúrgico. Enquanto sua avó justificava alguma coisa, de minha mesa eu o acompanhava com o olhar. Voltou repentinamente, apanhou uma caneta que encontrou sobre a mesa e se acomodou na cadeira que estava à sua frente. Fez vários flappings, movimento comum às pessoas com autismo clássico, enquanto a sua avó insistia para que ele abrisse e se apropriasse do presente que lhe dei. Era um terço de cor vermelho grená e com cheiro de rosas que uma amiga trouxe do Vaticano. Segundo ela, o terço foi benzido pessoalmente pelo Papa Francisco.

Kaio, aos 8 anos, havia feito sua primeira comunhão e agora estava em paz com Jesus no seu coração. Sua visita deveria ser rápida e o objetivo era somente apanhar o terço vermelho grená. Sua avó me contava que Kaio havia feito questão de colocar em seu Facebook uma foto em que aparecemos abraçados, tirada por ocasião de uma reunião com familiares ocorrida na unidade onde faz acompanhamento de reabilitação. Mas algumas das mães de usuários da mesma unidade haviam implicado com a divulgação da foto, uma vez que, atualmente, represento a administração pública municipal. Mas Kaio está alheio aos assuntos políticos e também às questões das relações sociais. Obedece somente aos impulsos de sua emoção que não podem ser controlados pelo racional de seu cérebro.

Percebi que Kaio estava incomodado com o tom de voz de sua avó, sugeri- -lhe que conversássemos num tom mais baixo. Kaio acalmou-se um pouco, mas logo sua agitação voltou, enquanto sua avó lhe dedicava carinho e discorria sobre suas qualidades. “É um garoto muito inteligente, que sabe o que quer. Ele me pediu para publicar a foto de vocês dois no meu Facebook e não pude deixar de atendê-lo, porque quando ele quer uma coisa não volta atrás, mas também porque percebi que isso era importante para ele. Expliquei às minhas amigas que não devemos misturar as coisas, pois a amizade é sincera e o momento político não tem nada a ver e não pode afetar a felicidade do meu neto.” A avó percebeu o adiantado da hora, interrompeu a conversa e apressou- -se em sair. Kaio percebendo se agitou pelo ambiente da sala, entendendo que estava na hora de partir para enfrentar outros desafios no caminho de volta para casa.

A avó e eu despedimo-nos com candura, enquanto Kaio, nos surpreendendo, voltou, veio em minha direção e beijou meu rosto num gesto de profundo carinho e amizade. Admirada a avó comentou que não era hábito dele esse comportamento espontâneo, dizia que estava passada e, ao mesmo tempo, feliz com a cena. Enquanto eu, também feliz, pensava que de toda aquela fala com os pais, familiares e usuários, talvez a única compreensão que realmente tenha recebido fosse do Kaio, que não me viu pela razão e sim pela emoção.

 

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